Maria
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Diário de Uma Prisioneira !
O azul do céu era como uma água pura de que tinha sede. Desejava voar pelos telhados planos para saciar os olhos ardentes de vida. Mas, sentia-se engaiolada, com uma esmagadora impressão de sufocamento, os nervos esfacelados. Um impulso de pânico por não poder voar, por não poder falar o que lhe ia na alma. O desejo de céu... de Sol !

O céu, o céu, o  Sol, o ar puro da vida !

Sentia-se enterrada viva naquele túmulo escuro, no calabouço que crescia em seu interior. Justo ela, que durante dois milênios, não vivera senão no círculo imenso e mágico das palavras. Agora, sem asas para voar, sofria a agonia dessa prisão.

E como pássaro enlouquecido na gaiola, chocava-se contra a implacável barreira que a impedia de falar.  As mãos ou asas diáfanas, já com as marcas do sofrimento, não faziam mais ruídos, batiam, batiam... em silêncio. Seus olhos caminhavam de um lado a outro, ora passando na porta fechada das asas do sol, ora na trapeira gradeada de suas palavras.

Não se reconhecia em muitas delas. Parecia que tudo ali dentro, era um outro país, um país de estrangeiros taciturnos e almas cobertas de suspeita.

Que lhe acontecia? Que temores lhe acometiam outra vez a alma?

Esmaga-a uma espantosa fadiga, a qual pareceu jamais ter experimentado antes, sequer nos dias mais difíceis, no tempo de sua transmutação.  O silêncio do sol por tanto e longo tempo, tornara-se em um suplício e cada dia perdia mais a coragem.

Perguntas rondavam seu espírito outra vez, conturbando-o. Teria se deixado abater a tal ponto de partir a tal mola de viver ?  E a de reviver ?

Arrastou-se de um canto a outro do ser. De longe viu, do lado de lá de si mesma, o berço do amor – seu coração – onde morava o sol. Almejava chegar lá pois era o único lugar em que desejava repousar a alma dolorida. Era como entregar o corpo cansado sobre um pedaço de relva verde e macia como plumas, sob os cedros de uma floresta, outonada de amor.

Voltou os olhos para a porta. Quantas portas fechadas ao longo de sua existência tão curta?, pensou. Portas cada vez mais pesadas, cada vez mais cerradas. Seria uma brincadeira que o destino se comprazia em puni-la pela criança de tranças soltas que ela era e que fora, quando galopava os pés nus pelas sendas da vida, pela floresta dos sonhos, e tão apaixonada pela liberdade que os deuses das letras acreditavam que era um pouco fada ?

“Você não passará”, diziam as portas. E cada vez que conseguia evadir-se, outra logo se erguia, mais implacável, mais porta, mais fechada em cadeados e trancas de ferro e aço. Após a porta da miséria, houvera a porta do medo, depois o gradeado do alcoolismo, em seguida a vida tão cheia de cestas de cisnes; conseqüente o medo de sair da escuridão, do sono milenar e agora o silêncio de palavras que lhe são fonte de vida e amor. Seria o silêncio mais forte ?

Pensou naqueles que, encarcerados também em cadeias físicas, do corpo, pagavam durante anos, atrás de portas de ferro, por indisciplina contra a vida dos outros.

Mas dessa prisão ela estava livre. Sua prisão era outra. Sua prisão era lá dentro, não fora de si. Uma solitária na prisão interior.

O sentimento de sua solidão e de sua fraqueza em continuar adiante abatera-a. Quando acordou de seus sonhos com a Dor de Morte atualizada silenciosamente, atracara num solo nu e árido, onde parecia que só cascalhos existiam para ferir os seus pés.

Parecia que somente dois critérios de vida existiam para sua caminhada: o medo do rei-sol e o amor que nunca se apaga no seu coração - da flor. Mas, a lei do mestre, sobrepunha-se ao que quer que fosse, trazendo como soma multiplicada, o silêncio. Sua realidade estampava-se a sua frente.

Vagava perdida em marés perigosas e devoradoras da areia sob seus pés. Não era senão um pobre marujo de águas tenebrosas e profundas, mas rasas das cartas, poesias, flores e festas do passado.

Nem tinha mais onde buscar lembranças. Elas se foram com o vento que leva as primeiras folhas do outono. O mensageiro de lembranças estava vazio. E nos jardins, o silêncio. Não tinha mais onde buscar forças para continuar a não ser nas vozes caladas e falantes do passado. Uma agonia cresceu dentro do peito. Desesperada clamou a meia voz:

- Sol, Sol, meu irmão !

E o silêncio foi tão grande que seu som foi ouvido no infinito de sua alma e doeu na carne do espírito. Um suor frio inundou-a e fê-la desfalecer.

Foi quando sentiu... um desejo luminoso, uma vontade imensa e ardente, de continuar a viver !
Maria
Enviado por Maria em 10/07/2008
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