O verdadeiro sentido do Natal para mim
Este ano (e parte do ano passado) me mostrou o que é estar só. Mergulhei numa solidão que nem milhões de amigos poderiam preencher (mas que um verdadeiro amigo poderia simplesmente 'estar'). Mas ouvi seus comentários, seus julgamentos, suas fantasias e inverdades sobre o que poderia ter acontecido até além mar. E senti os seus silêncios. É curioso como o silêncio pode ser tão ensurdecedor. Ninguém – ou quase ninguém – perguntou como eu estava. Mensagens raras (raríssimas), visitas inexistentes, promessas vazias. As pessoas, os irmãos simplesmente sumiram da minha vida.
Em junho, perdi o emprego que era, neste ano, minha fonte mais substancial de renda. Não consegui acessar o seguro-desemprego por um vínculo mínimo que me prendia a uma renda insuficiente. Não consegui acessar uma bolsa de estudos em posdoc que todos julgaram certo eu ter acessado. Fiquei à deriva.
Alguns poucos – os gatos pingados (amo muito vocês viu? - você que esteve comigo sabe que estou falando de você) que realmente importam – se mantiveram presentes. Uma amiga dos tempos de graduação, que ao longo de anos se fez presente na minha vida, continuou do meu lado, me visitando, apoiando, amando. Um amigo querido que fiz no mestrado e não me deixou só um minuto, sempre enviando poesias, sempre me chamando pra um chimarrão na pracinha da Rua Joinville, sempre atento ao que eu precisava pra me sentir forte para seguir na crise. Uma amiga que conheci nos conselhos por aí no passado - cuja amizade se fortaleceu no seu mestrado - me desafiou a criar minha empresa. Outra - minha professora na graduação - faz questão de tomar café comigo todos os meses, sem falhar só para me incentivar a viver. Conversa diariamente comigo me enviando mensagens de incentivo para viver o dia. Amigos que fiz na faculdade ao longo do tempo me ofereceram trabalho, revisões, produções de conteúdo. Alunos me animaram nos momentos mais difíceis. Eles não me deixaram cair completamente.
Mas este texto não é sobre eles. É sobre o silêncio das pessoas com quem convivemos por anos e anos e que nos deixam à deriva e sozinhos quando mais precisamos. Sobre aqueles que sabem que sumimos, sabem que silenciamos, mas não estendem uma palavra, sequer uma, quando estamos no chão. Sobre promessas não cumpridas de visitas, sobre convites ignorados, sobre a falta de um gesto simples que poderia mudar tudo.
Quando alguém pede que você venha, não estaria esse pedido carregado de urgência? Não seria um grito silencioso de socorro? Por que não conseguimos ouvir isso? Por que somos tão centrados em nós mesmos, tão distraídos pela nossa própria vida, que não conseguimos nos dispor a amar, a oferecer um abraço, um olhar, ou simplesmente estar?
Quando o outro desaparece e silencia, não estaria ele enviando uma mensagem silenciosa e invisível de socorro?
Neste ano, percebi o quanto somos egoístas. Falamos de amor na Páscoa, no Natal, falamos de esperança e redenção, mas não conseguimos olhar para quem está ao nosso lado. Não conseguimos sequer desejar um “Feliz Natal” sincero para aqueles que caminham ou caminharam conosco há anos - e sabemos que estão (está) no fundo do poço... Como, então, queremos que o nosso amor alcance aqueles que vivem em países distantes, nas ruas, ou enfrentam dores que nem conseguimos imaginar?
Amar o outro, no sentido mais profundo, exige que nos dispamos de nós mesmos. É abrir mão do nosso conforto, da nossa rotina, dos nossos medos e preconceitos para tentar – ao menos tentar – enxergar como o outro está. Amar exige presença, mesmo que em silêncio, mesmo que distantes, mas com uma palavra só podemos ficar perto...
Este ano, aprendi que a solidão se torna uma companheira, uma espécie de pecado querido quando não há mais ninguém ao nosso lado. Aprendi que, sem alguém para nos estender a mão, é difícil levantar. Também aprendi que, com o tempo, vamos criando um novo jeito de viver sós. E esse jeito acaba ficando. Então chega o dia em que não queremos mais visita, em que não queremos mais ver ninguém, em que queremos, real e definitivamente, ficar sós. E se dissermos isso para amigos do passado seremos, mais uma vez, condenados...
Se você não consegue ir até alguém, como espera que essa pessoa tenha forças para vir até você? Não seria o amor um ato de buscar o outro, de fortalecer o outro, de oferecer o que temos de mais puro?
Em minha solidão de amigos neste ano eu abri um outro portal. O portal de olhar o outro em sua solidão, em seus medos, em suas angústias tão próximas e presentes. Aprendi a 'ler' o olhar dos que me rodeiam, a olhar com mais profundidade para quem está do lado, não lamentar os que não caminham mais comigo, mas agradecer porque novas pessoas se fazem presentes no caminho.
Hoje, sei que amar o outro é muito mais do que palavras ou promessas. É presença. É ação. É estar disposto a ser o apoio que o outro precisa para encontrar forças, mesmo nos momentos mais sombrios.
É assim que desejo viver o resto dos meus dias. Com esse olhar de amor para o outro, independente de como ele é, com quem é... simplesmente por ele existir, por ser... assim, assim, de coração aberto para o amor, para a compaixão, para o que entendo, é viver o verdadeiro sentido do Natal.
Maria
Enviado por Maria em 28/12/2024
Alterado em 28/12/2024