Maria
Prosa e Poesia
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Fragmentos de Tudo

Um dia, éramos inteiros.

O conhecimento fluía como rio,

unindo margens, transbordando essência.

Mas então, com mãos ávidas e mentes inquisitivas,

pegamos o todo e o partimos.

Machadamos o universo,

fatiamos a verdade em mil pedaços,

e chamamos isso de progresso.

 

O que era um, agora são lados.

O que era completo, perdeu-se em ângulos.

O selo da gênese, rasgado pela pressa

de entender mais, de ser mais,

sem perceber que na busca

desaprendemos a ouvir o todo.

 

E agora?

Nos deparamos com nossos cacos,

espalhados pelo chão do tempo.

Falamos de integração,

de gestão integral,

de juntar o que um dia quebramos.

Como crianças que desmontaram o brinquedo,

desesperadas por montá-lo outra vez,

descobrimos que faltam peças,

que algo, invisível, se perdeu no vento.

 

Talvez seja o arrependimento que nos move.

Ou a nostalgia de uma completude esquecida.

Olhamos para trás,

para nossos pais, nossos mestres,

para os primeiros que moldaram a argila do saber.

Tentamos entender onde erramos,

mas talvez o erro seja apenas humano.

 

Até o que chamamos de novo

é eco do que já foi.

Nada nasce do nada,

nem a inteligência mais artificial.

Ela também carrega em seus códigos

o rastro de todas as mãos que a criaram,

de todas as vozes que a alimentaram.

Nada é novo debaixo do sol,

o pregador tinha razão.

 

E aqui estamos nós,

lutando desesperadamente para integrar.

Para refazer o caminho,

para unir as partes.

Mas será que queremos mesmo o todo?

Ou é apenas a saudade que fala?

 

Porque o todo…

o todo exige silêncio,

exige tempo,

exige escuta.

E nós, que vivemos correndo,

seremos capazes de parar?

Maria
Enviado por Maria em 06/01/2025
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