Um dia, éramos inteiros.
O conhecimento fluía como rio,
unindo margens, transbordando essência.
Mas então, com mãos ávidas e mentes inquisitivas,
pegamos o todo e o partimos.
Machadamos o universo,
fatiamos a verdade em mil pedaços,
e chamamos isso de progresso.
O que era um, agora são lados.
O que era completo, perdeu-se em ângulos.
O selo da gênese, rasgado pela pressa
de entender mais, de ser mais,
sem perceber que na busca
desaprendemos a ouvir o todo.
E agora?
Nos deparamos com nossos cacos,
espalhados pelo chão do tempo.
Falamos de integração,
de gestão integral,
de juntar o que um dia quebramos.
Como crianças que desmontaram o brinquedo,
desesperadas por montá-lo outra vez,
descobrimos que faltam peças,
que algo, invisível, se perdeu no vento.
Talvez seja o arrependimento que nos move.
Ou a nostalgia de uma completude esquecida.
Olhamos para trás,
para nossos pais, nossos mestres,
para os primeiros que moldaram a argila do saber.
Tentamos entender onde erramos,
mas talvez o erro seja apenas humano.
Até o que chamamos de novo
é eco do que já foi.
Nada nasce do nada,
nem a inteligência mais artificial.
Ela também carrega em seus códigos
o rastro de todas as mãos que a criaram,
de todas as vozes que a alimentaram.
Nada é novo debaixo do sol,
o pregador tinha razão.
E aqui estamos nós,
lutando desesperadamente para integrar.
Para refazer o caminho,
para unir as partes.
Mas será que queremos mesmo o todo?
Ou é apenas a saudade que fala?
Porque o todo…
o todo exige silêncio,
exige tempo,
exige escuta.
E nós, que vivemos correndo,
seremos capazes de parar?