Retornei hoje de uma viagem de uma semana pelo Rio Grande do Sul. Visitei família, parentes, amigos de longa data.
Na casa da minha irmã alguém em algum momento falou dela. Não prestei muita atenção sobre o que falavam, mas o pensamento voltou à alguns atrás quanto eu também me encontrava visitando minha irmã, cunhado e sobrinho.
A noite já caminhava quando Dona Júlia bateu na porta. Meu sobrinho foi abrir e ela surgiu pedindo ajuda: precisava medir a pressão.
Minha irmã trabalha no setor de alimentação e higiene num hospital e é muito querida pelos vizinhos que sempre vem em sua casa à noite ou em fins de semana para 'medir' a pressão arterial. É que ela fez isso por anos em minha mãe que era deficiente visual (cegueira total) e diabética. Então o povo acostumou vir na casa dela pedir ajuda.
Dona Júlia, de mais de 70 anos, era vizinha do lado. Meu sobrinho - hoje com 18 anos - era um moleque de uns 7 ou 8 e vivia em sua casa. Ela cozinhava as comidas que ele mais gostava e convidava para almoçar. Ele ia na casa dela praticamente todos os dias. Era só pular o limite (invisível) entre uma casa e outra.
Naquela noite Dona Júlia surpreendeu. Também porque estava vestida com uma camisola até quase os pés. Relatou que já estava indo deitar quando passou mal, sentiu tonturas e enjoo. Veio correndo na vizinha para medir a pressão.
Minha irmã colocou o aparelho e ficou muito preocupada: a pressão de cima (não sei como se fala) estava acima de 25. Então ela pediu que eu levasse urgente a Dona Júlia no hospital.
- Não vou, disse a senhora.
- Vai sim, retruquei.
- Preciso só descansar, ela argumentou.
- Sim Dona Júlia, vai descansar no hospital.
Como não tinha jeito de convencê-la apelamos para o meu sobrinho. Ele pediu e deu certo. Ela concordou. Minha irmã ajudou ela entrar no carro e voei para o hospital que ficava a umas 5 quadras.
Chegando lá, foi atendida com urgência e imediatamente levada a um quarto para internação e medicação.
O hospital é bem pequeno (a cidade tem 6 mil habitantes) e todos se conhecem. Até eu era conhecida lá, como a irmã da Sil ou da Nega (apelido da minha irmã por ter nascido numa família italiana e ser a mais nova dos filhos).
Dona Júlia também era conhecida e foi imediatamente internada após o atendimento de urgência.
No soro e medicada pediram que eu fosse buscar familiares, pois como ela era idosa não podia ficar sozinha e eu não tinha como ficar.
Eu não sabia onde os filhos moravam, mas minha irmã sim, então disse pra ela que iria atrás deles e os traria para o hospital.
Ela solicitou que a enfermeira saísse e pediu pra falar comigo em particular. Disse, baixinho, que precisava de duas coisas:
- Na pressa de sair eu esqueci meus dentes dentro do copo em cima da mesa da cozinha, me disse envergonhada.
- Ah, Dona Júlia, pode deixar, vou em sua casa buscar.
- A porta está aberta pois eu saí correndo. Olha em cima da mesa da cozinha... estão dentro de um copo.
- Certo...
- Poderia fazer mais um favor?
- Sim, claro!
- Poderia procurar no meu armário uma calcinha? É que eu estava me vestindo pra dormir quando passei mal e então só enfiei a camisola pela cabeça, me disse desolada.
- Pode deixar Dona Júlia. Trago uma calcinha também.
E me fui eu pra casa da Dona Júlia procurar os dentes e a calcinha. Antes passei na casa da minha irmã pegar meu sobrinho que conhecia bem a casa dela e para não entrar na casa sozinha.
Adentramos a casa e lá estavam os dentes (duas próteses) dentro de um copo. Embrulhei as duas em guardanapos e coloquei num saco plástico dentro de uma sacola de supermercado. No armário achamos calcinhas e por fim vi uma toalha de rosto e coloquei junto na sacola.
Deixei meu sobrinho em casa e fui atrás dos parentes da Dona Júlia. Achei um filho e o levei ao hospital.
Enquanto ele conversava com o médico e enfermeiras fui rápido colocar a calcinha na Dona Júlia e ajudar com os dentes.
Pronto! Ela estava perfeita para receber o filho e demais visitas.
Dona Júlia poderia ter morrido. Ficou vários dias no hospital, fez inúmeros exames, recebeu um tratamento novo e viveu mais alguns anos.
Hoje é falecida, mas a lembrança dela continua viva na família da minha irmã! E foi porque falaram nela que lembrei dessa história acontecida há uns 10 anos atrás.