O calendário sussurra lembranças antigas,
e os ponteiros do relógio caminham como passos silenciosos
até o dia em que escrevi teu nome sobre meu próprio rosto
e depois fui à câmara antiga - teu templo do cotidiano.
Aquele dia em que me abraçaste com um soluço
e logo te afastaste por causa de uma conversa muito “pesada”.
Faltam apenas três passos da noite para aquele dia -
o dia em que escrevi teu nome em minha pele
e depois fui ao salão do tempo,
onde reverberam os ecos dos anos.
Aquele dia em que me abraçaste com um soluço
e logo te afastaste, como se o peso do mundo
repousasse sobre teus ombros,
mergulhando na câmara do tempo,
onde cada gesto ecoou no silêncio que se fez.
Sentaste no trono do cotidiano,
voltaste o olhar ao espelho da tua vida -
altar das minhas lembranças -
e repetiste, em murmúrio distante,
aquela frase que se tornou um eco na minha alma:
- Maria, estou tendo uma conversa muito pesada.
O silêncio reverberou em meus abismos,
cravou fundo na alma.
Respirei fundo.
Perguntei:
- Te espero?
Respondeste:
- Não...
E eu me fui...
triste e vazia,
imortalizando em imagens
as folhas e flores pelo caminho,
como se assim pudesse apagar a dor.
Espero.
Espero até hoje.
Três milênios se passaram.
Não é um dia, não são 24 horas, nem 48, nem 96...
São três vezes trezentos e sessenta e cinco mil voltas
da Terra ao redor do Sol.
E continuo aqui, esperando.
Firme.
Fiel.
Fiel ao que acredito ser o amor da minha vida.
Fiel ao que sei o ser...
E ao qual, sempre - por toda a eternidade,
aconteça o que acontecer - serei fiel.
Porque acredito que meu tempo chegou:
o tempo de viver o amor verdadeiro.
Talvez não tenha chegado para ele,
o objeto do meu amor,
o coração que amo em silêncio e eternidade.
Mas para mim, esse tempo chegou.
E então dizem que eu devia estar por aí,
saindo em baladas todos os fins de semana,
“pegando” homens -
o massagista, o médico, o colega de trabalho...
Mas eu espero.
Espero como quem espera as estrelas descerem à terra,
como quem espera o Sol.
Espero!