Maria
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Textos

Cartas de Saint Michel - Da ânsia de amar

Saint Michel, num dia de novembro de 1889.

 

Joseph!

 

Eu pensei que a ânsia de amar já houvesse sarado em ti. Pensei que você já me amasse.

 

Quando o coração aprende a amar, a dor primeira (da busca incessante, da ânsia por amar) se cala - e nasce outra dor, nova, inteira: a de entregar o amor à pessoa amada. De estar perto, junto, dentro.

 

A dor de querer amar cede lugar à ânsia de se dar, se entregar. E eu pensei que você já tivesse chegado a esse segundo estágio, o do amor verdadeiro - aquele que silencia o desespero e caminha em busca de entregar o sentimento a quem se ama. Mas vejo que você ainda luta contra o amor, repete o mesmo movimento de busca e fuga, de dor e carência, como quem ainda não reconhece a própria alma.

 

Tudo o que fizeste - os gestos em minha direção ao longo dos anos, as presenças na janela do tempo profundo, as palavras silenciosas que só quem ama compreende - tudo isso já me dizia que você ama.

 

Mas você não se escuta. E o que te move, ainda, é... a ânsia de amar e não o amor em repouso. Por isso, procuras estrelas que logo se apagam para entregar o teu calor. Por isso, olhas para a vela à tua frente e não encontras o verdadeiro Amor, apenas um calor, um brilho que sabes que - satisfeito o desejo se apagará para sempre -, a paixão momentânea, e o mais dolorido: o... (des)amor...

 

Eu, ao contrário, encontrei a paz de me saber. A paz de reconhecer este amor como eterno, como chama que ultrapassa a vida e se prolonga na luz. Reconhecer-te como alma gêmea, chama antiga, eco da eternidade em mim. Eis o tesouro e o privilégio de encontrar a paz, mesmo dentro da rejeição, da ausência... da saudade... da dor de ter esse amor dentro do coração, mas não te ter ao lado, junto, perto... 

 

O que me fere é saber que também me amas, mas negas o que sentes, fugindo do que teu coração já admite vivenciar: o sentimento, o amor verdade. A dor é essa: ver-te preso em tua própria negação, negando para ti mesmo também o meu amor por ti, dizendo-te que te sou indiferente, que não te vejo... enquanto aqui estou... te espero - todos os dias te espero... 

 

Espero uma carta com um “oi”, uma mensagem, um gesto mínimo que diga: “eu também estou aqui”. Mas o silêncio... é o que mais dói. E mesmo ferida pelas tuas palavras de rejeição, pelas tuas ausências, pelas tuas fugas em busca de outros corações... eu continuo te esperando. Porque sei: sem você, eu não morro - mas sem você, não tenho alegria para viver.

 

O amor tem dois lados. Amar sozinha é um eco que se apaga. Eu quero te entregar esse amor, mas quero também receber amor de você. E isso, querido, não depende de mim. Depende da tua alma, do teu passo, da tua decisão. É uma escolha. E hoje ainda não sou a tua... 

 

Talvez tenhas medo. Talvez olhes para mim e te lembres que já disseram que não sou teu perfil. Tenho a alma que amas, o espírito que te compreende e completa, mas a casca... ah! a casca não é o espelho do que esperavas mostrar, do que querias exibir como troféu ao mundo. E dói. Dói pensar que o medo do olhar dos outros é maior do que o desejo de caminhar comigo, maior do que o próprio amor.

 

Não sou a mulher perfeita, nem a bela, nem a jovem. Sou a que te ama com a inteireza do tempo e dignidade de quem sou. Sou aquela que te esperou em todas as eras. A que tem o nome certo e a que sabes - é Luz que dizes te iluminar... Mas... mesmo assim, te vejo buscando em outros corpos o amor que já habita o teu coração.

 

Não tenho ciúmes - tenho dor. Como poderia ter ciúmes do que não é meu? E amor... eu sei... amor não é posse... é desejo de partilha. É querer estar apenas com aquele que se ama e com mais ninguém. Por isso, mesmo não te tendo, mesmo sabendo que não és meu e que, talvez, jamais serás, sou tua, e te sou... te serei eternamente fiel. 

 

Então, sigo minha triste caminhada sobre a terra. Caminho... Sigo... Chorando baixinho, escondendo o pranto para que não percebas. Carrego essa dor como quem carrega uma estrela dentro do peito: queima, derrete-se em chamas, mas ilumina minha alma e meu viver. Em mim, é fonte de vida e não de morte...

 

Você fala em solidão. Mas a tua solidão é também a minha. A dor que lamentas, os espinhos teus são todos meus também... só que eu não os jogo pra cima de você. Eu acolho a ferida, acolho a dor da solidão, olho para ela e busco transformá-la em Amor.

 

Essa é a meta, a sina, o destino da minha vida: amar-te e te entregar amor. E o faço com poesia, o faço com música, o faço com meu sorriso... com meu olhar - todo teu...

 

Se haverá reciprocidade, hoje já não sei mais. Acreditava que sim. Sonhei. Talvez ainda sonhe. Talvez, talvez ainda acredite. Mas a realidade, todos os dias, me diz - com o teu rejeitar, com o teu me empurrar para longe, com o teu silêncio e a tua ausência - que talvez esse sonho jamais se concretize.

 

Talvez, talvez... eu tenha o nome certo.... mas, tenha nascido fora do teu tempo, no corpo errado, na forma que o teu olhar não escolheu.

 

Mas nasci no amor certo... E isso me basta para continuar te amando, mesmo que o amor, por ora, seja só um canto meu lançado ao vento, um hino ou um lamento, um ruído triste - ecoando entre o real e o metafísico, na janela do tempo profundo... onde ainda - eternamente - te espero.

 

Na saudade do que nunca tivemos, tua sempre,

Marie.

Maria
Enviado por Maria em 18/10/2025
Alterado em 18/10/2025
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