Maria
Prosa e Poesia
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Ao Leo: Olhando para o passado, penso que continuamos a viver épocas indecisas e angustiantes do século passado. A história continua em transe em seus furores e aleatoriedades. Em meio ao caos a Poesia me salva. Por isso, a Vivo!

Explico: Morin em Meus filósofos diz que,

No transcorrer de meus anos de guerra e de Resistência, fiz a descoberta de Marx, depois veio a iluminação hegeliana, que me revelou que o enfrentamento das contradições era uma necessidade vital do pensamento. Compreendi, em seguida, outra verdade hegeliana, a de que existe outro concreto além da experiência existencial, que é o da complexidade que percebe diversas faces de uma mesma realidade, inclusive as contraditórias. As tendências de meu espírito, fecundadas por Hegel, puderam naturalmente conceber como complementares o Século das Luzes e o romancismo, Voltaire e Rousseau, Kant e Hegel, Kierkgaard, a racionalidade científica e o surrealismo (cuja importância meu amigo Dyons Mascolo me fez conhecer, e a ideia surrealista de que a poesia deve ser vivida se desenvolveu em minha concepção de vida humana bipolarizada entre prosa e poesia). Quando éramos estudantes resistentes, em 1942, meu amigo Jacques-Francis Rolland e eu fomos iluminados por Rimbaud e, principalmente, por seu livro Uma estação no inferno que, de modo sublime, exprimia todos os segredos da adolescência, da nossa inclusive, e que fornecia todo seu sentido poético exaltando nossa revolta e nossas inspirações: "Recebemos todos os influxos de vigor e ternura reais. E no despontar da aurora, armados por uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades. [...] Será, então, viável para mim possui a verdade em uma alma e um corpo. Foi assim que fui animado pela vontade de entrelaçar tanto quanto possível filosofia, ciência, literatura, poesia e, bem antes que surgisse em mim a necessidade imperiosa de utilizar esse termo, eu buscava a complexidade, que significa integrar simultaneamente as múltiplas dimensões de uma mesma realidade, a saber, a realidade humana, as incontáveis contradições e as inelimináveis incertezas (Morin, 2020, p.13-14).

 

Neste trecho do livro Meus Filósofos Edgar Morin relata que ouviu Dionys Mascolo e rompeu com sua concepção bipolarizada entre prosa e poesia. Esse é um ponto fundamental do pensamento de Edgar Morin: a ruptura com dicotomias rígidas. Ao ouvir Mascolo - o filósofo e ensaísta comenta que via na literatura um gesto revolucionário - Morin abandona a separação entre o “prosaico” e o “poético”. Essa escuta transforma-se em abertura ao pensamento complexo, que acolhe o sensível como via legítima de conhecimento.

Conforme o autor, foi a partir dessa mudança que ele compreendeu porque se encantou com Rimbaud em Une Saison en Enfer (Uma Estação no Inferno), que lhe revelou - de forma sublime, ele diz - os segredos de sua adolescência… A referência a Une Saison en Enfer é belíssima. O livro de Rimbaud, profundamente visceral e visionário, mostra a travessia entre o inferno interior e a revelação criativa. Morin reencontra ali o espelho de sua própria juventude - o momento em que a razão ainda não sufocou a vertigem do sentir. Entende-se aqui que o poeta revela que Rimbaud o ajudou a reconciliar-se com o que havia de mais indomado em si.

O autor acrescenta que passou a ver sentido poético nas revoltas e inspirações de si mesmo e de seus amigos. Essa fala toca o cerne ético de Morin: a comunhão humana. As “revoltas” e “inspirações” deixam de ser ruídos e passam a ser movimentos poéticos da existência - gestos de criação diante do caos. Aqui, o pensar e o viver se tornam inseparáveis.

É latente que Morin buscou essa íntima compreensão nas múltiplas dimensões da realidade: a humana, suas incontáveis contradições e inelimináveis incertezas. A citação de Morin em Meus Filósofos (2020, p. 13 e 14) sintetiza o projeto moriniano: um pensamento que abraça a complexidade da condição humana. Em vez de fugir da incerteza, Morin a transforma em motor de conhecimento - um “não saber” fértil, onde o mistério é parte do real.

Eu disse que queria ser livre como Morin - navegar nas ondas do pensamento como quem surfa estrelas num céu granizado de tempestades. Talvez, talvez este pensamento seja puro lirismo filosófico. Transferir o pensamento e a figura de Morin para uma metáfora cósmica - o pensador como surfista do caos, alguém que dança entre o risco e o assombro. Olhando a partir deste prisma agora vejo que minha metáfora do Caos, “Céu granizado de tempestades”, é uma imagem extraordinária: o universo do pensamento como algo belo e perigoso, onde só se avança aceitando o desequilíbrio. É assim que me vejo em meus pra dentro, entre o chão para pisar e os abismos profundos que me habitam. Sim, abismos. Quem me conhece sabe que minhas xícaras são sempre canyons profundos em meus pra dentro. Por isso, eu transito sempre entre a prosa e a poesia, em perfeita sintonia com o que o próprio Morin defende: a necessidade de reconciliar razão e emoção, análise e imaginação.

Talvez, talvez... aqui também haja uma filiação espiritual: eu me aproxime mais ainda do ethos moriniano ao reconhecer no pensamento não apenas uma ferramenta de compreensão, mas uma forma de vida, uma arte de existir. Poesia deve ser vivida fala o próprio Morin (2020, p. 13).

Porque pensar, afinal, é deixar-se atravessar pela vida - e só quem aceita dançar entre o caos e o encantamento descobre que todo pensamento verdadeiro é também uma forma de poesia. Ser livre como Morin talvez seja isso: fazer do pensamento uma travessia amorosa, onde razão e poesia se entrelaçam para manter viva a chama do humano. E se minhas xícaras são sempre abismos (canyons profundos), que nelas eu continue bebendo o mistério - o sabor da existência entre o real e o poético, onde, como Morin, continuo a aprender a viver. No fim, compreender Morin é compreender que o pensamento não se conclui: ele floresce, contradiz-se e se reinventa - como a própria vida, que só se torna inteira quando dita em poesia.

 

Do meu livro com Leo Trindade: História em Transe: a luta pelo caminho da compaixão em tempos de desvario e angústias latentes...

Maria
Enviado por Maria em 09/11/2025
Alterado em 09/11/2025
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