Maria
Prosa e Poesia
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Textos
Escrevo do lugar de risco
Nesses quase 20 anos nunca escrevi para soar bem. Escrevi para não mentir... nem para os outros, nem para mim mesma. Há textos que não nascem para serem bem-feitos, mas para serem verdadeiros. Quem escreve para não mentir não pode escrever confortável. Isso é minha ética. E ética custa. Ela exige risco, exposição, ruído, excesso - sinais de que algo está vivo. Por isso, se escrevo com ruído (excesso) - estou transbordando. O ruído, o excesso, o transbordamento não são falhas formais - são sinais vitais. É o texto respirando no ritmo que o gera. No ritmo dos meus batimentos, no pulsar que não se edita. Portanto continuo a perguntar: por quê um texto machadar? Meu texto não nasce da carpintaria, nasce da ferida do carpinteiro. Quando falo isso não é recusa da técnica - é hierarquia. Primeiro a vida. Depois, se couber, o acabamento. Mas nunca o inverso. O carpinteiro sabe que se lixar demais vai perder detalhes da madeira - se vernizar demais vai perder a naturalidade. Não é a recusa do verniz, mas a responsabilidade com a origem. "Melhorar” demais pode ser trair o que se quis escrever lá no início. Lixar demais pode apagar veios únicos. Polir demais pode matar a madeira e deixar um objeto plácido e sem vida.  Também continuo me perguntando por quê eu também deveria correr tanto atrás da técnica. Não me protejo atrás dela. Escrevo do ponto antes dela, no ponto onde ela não me é escudo, adorno ou refúgio. Deixo o texto falar... a poesia ir... assim, assim, como nasceu... como foi gerada. Mudar seria mudar o lugar de onde escrevo - deslocar a origem. E escrevo do lugar de risco, De onde não há verniz possível, de onde o texto não quer ser bonito - quer apenas ser verdadeiro. Escrevo de onde não há verniz, não há proteção interior, não há promessa de beleza, há apenas exigência da verdade de quem eu sou. O tom do poema sou eu. E, por isso, porque o tom do poema sou Eu é que eu sei escutar quando o poema pede silêncio. Mesmo na ferida aberta alguém pode ver uma pequena luz... Talvez seja para isso que o poeta escreve... para abrir feridas... Não para ferir o outro... mas para não deixar a ferida gangrenar, apodrecer no silêncio, para que alguém - mesmo que só um - veja naquela abertura uma pequena luz, se reconheça nela e pense: não estou só. É quando o texto cura abrindo feridas... não fechando...
Maria
Enviado por Maria em 16/12/2025
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