"Particularmente, tenho esse sentimento de um mundo tecido de ilusão, mas tenho ao mesmo tempo o sentimento de que essa ilusão é nossa única realidade. Trata-se de um paradoxo que sempre me surpreende: o de que tudo o que é muito importante para nós, nossos sofrimentos, nossos amores, não seja quase nada, mas que esse quase nada para nós seja tudo. Penso ao mesmo tempo e contraditoriamente, que esse mundo imaginário, meio real é nossa única realidade de carne, sangue, de alma, de amor, de vida, de paixão" (Morin, 2020, p. 35).
Penso que a ilusão gera dor - ou o sofrimento como Morin fala -, posto que é o não acontecido em todos os tempos. Se há dor, há algo palpável. Se há algo palpável há uma realidade vivida. Se há uma realidade vivida há uma concretude do real. Logo - sim, o quase nada (a ilusão - que não existe) é tão existente que se fez real. Então o tudo do nada que nunca se teve.
Quando Morin diz que o mundo é tecido de ilusão e, ao mesmo tempo, que essa ilusão é nossa única realidade, ele está afirmando algo decisivo: a realidade humana não é o fato em si, mas o sentido vivido do fato. Por isso: o amor pode “não existir” objetivamente, a perda pode ser simbólica, o sonho pode não se realizar, mas o sofrimento, o desejo, a paixão são absolutamente reais. Em Morin, a ilusão não é o oposto do real - ela é uma dimensão constitutiva da realidade humana.
Então... “Se há dor, há algo palpável". Isso é correto existencialmente (não empiricamente). A dor é um efeito real, logo algo real a sustenta - mesmo que não seja material, factual ou verificável. Em Morin: o sofrimento é real mesmo quando o objeto que o provoca é imaginário, simbólico ou perdido. Ou seja: a dor prova a existência da experiência, não do objeto.
Para Morin, há uma realidade vivida, experiencial, simbólica. A ilusão não é algo que “não existe” - ela existe como experiência, não como fato objetivo. Portanto, a ilusão não é inexistência, é realidade vivida sem garantia factual. O sofrimento prova que ela tem consistência ontológica para quem vive.
Por isso, “o quase nada (a ilusão) é tão existente que se fez real”. Morin diz exatamente isso, em outras palavras: aquilo que é “quase nada” do ponto de vista do universo é tudo do ponto de vista humano. Porque: nossa realidade é carne, sangue, alma. Não é a realidade das estrelas, mas a que dói, ama e perde. Logo: o “nada” cósmico é o “tudo” existencial.
Isto significa que a ilusão não nega a realidade humana, ela a constitui. O sofrimento mostra que o imaginário possui eficácia real. Aquilo que não existe objetivamente pode existir plenamente como experiência vivida. Assim, o “quase nada” é, para nós, tudo.
Mergulhar palavras não é um erro lógico. É se permitir a um pensamento complexo, não linear. É não tentar resolver o paradoxo - mas habitá-lo. E é exatamente isso que Morin propõe: não eliminar contradições, não reduzir tensões, pensar com elas. Pensar no mesmo plano ontológico.
Por isso, posso dizer que aquilo que nunca se teve pode ser o que mais dói - porque foi vivido como real. Pensar isso não é falha do pensamento. É a condição humana.