Não sei se leio os filósofos do lugar certo. Eu os leio do meu lugar. A partir de quem sou, onde sou, com a minha própria voz, meu ritmo.
Talvez por isso eu escrevo - para eu mesma tentar entender porque falo deixando paradoxos em aberto, por que minha escrita pede sempre isso.
Seria uma falha do meu pensamento? Um medo - talvez? Se dialogo com Heráclito, Morin por que tenho sempre de viver o que dizem? Habitar?
Se para Heráclito o ser é devir: existir é mudar... para mim existir é habitar e se deixar levar pelo lugar de habitação, a palavra falada, escrita, o rio...
Em Heráclito o rio "é" rio justamente porque muda. Ou seja, a identidade não está na permanência, mas no movimento. O "mesmo" (rio) só existe como relação, nunca como repetição. Por isso, habito também o rio e me deixo levar por suas águas para onde ele quiser me levar...
Se encontrei o paradoxo heraclítico da "continuidade sem imobilidade" e converso com Morin com minha escrita, com minha ideia de que a dor, a ilusão, o amor e a palavra são reais porque acontecem em nós, mesmo sendo instáveis, frágeis, transitórios o rio também conversa com minha “janela do tempo profundo”, minha ideia de fusão (e não significado) ou com o fato de eu escrever do lugar do risco... ... ...
... acho que preciso continuar navegando... pelo mesmo rio - sabendo que ele já não é o mesmo...