Maria
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Textos

Lugar de Escrita

Não tenho uma teoria, mas tenho um lugar de escrita. E nele quero morar. Como um barco que sabe que seu lugar é sobre as águas do rio, do igarapé, do mar... Se o rio conversa com minha janela do tempo profundo é porque sou eu que falo entre eles do meu lugar.

Quando falo em janela do tempo profundo, não estou olhando o tempo como linha. Estou olhando o tempo como camada, como espessura viva. Heráclito diria: o rio não passa no tempo - o rio é o tempo passando. O ser é processo, não substância.

Quando me coloco diante da minha janela do tempo profundo, não estou tentando fixar o que foi. Estou aceitando que o que vejo já está mudando enquanto é visto. É por isso que dói. Porque não há posse possível.

E a minha escrita nasce exatamente aí: entre o que escorre e o olhar que tenta tocar sem segurar. O poema é a moldura provisória de algo que já está indo.

Morin não diz que a ilusão é falsa. Ele diz algo mais inquietante: ela é real porque é vivida. Por isso eu acho que o quase nada é tão existente que se fez real. Complexo, muito complexo. Significa que a dor prova existência. O sofrimento é um fenômeno, não um erro cognitivo. Dor não prova falsidade - prova acontecimento.

Mas... mas... não, não... eu não quero explicar o mundo. Eu quero ser perpassada por ele. Morin chamaria isso de: diálogo entre opostos, coexistência sem resolução, tensão fértil... Eu chamo de: alma encontrando mente, cósmico encontrando íntimo, palavra encontrando silêncio. A fusão não elimina o conflito. Ela o sustenta sem romper.

Sobre o meu “escrever do risco”... Heráclito escrevia em fragmentos. Escuros. Incômodos. Oraculares. Não por estilo. Mas porque o mundo não cabe em discurso liso, plácido, mas é pura erupção, lava incandescente misturada à cinza e pedras em voo pelo ar...

Por isso, eu digo: escrevo do lugar de risco. Significa que escrevo antes da técnica, antes do acabamento, antes da proteção. Escrever antes da técnica não é rejeitar a técnica; é recusar que ela venha antes da vida. Isso é uma posição estética e ética clara. Assim como o rio: antes de ser mapa, antes de ser margem, antes de ser controlado.

Assim, torno a dizer: lapidar demais seria represar. Eu escrevo para que a água continue correndo. E talvez hoje, tantos anos depois eu aceite e reconheça que não escrevo sobre o fluxo. Sou ele escrevendo. Por isso: há repetição - é a correnteza. Há excesso - é a cheia, o transbordamento. Há silêncio - é o remanso... Isso não é figura de linguagem. É posição ontológica. Escrevo não tenta explicar o mundo. Aceito ser atravessado por ele.

E, por isso, em meus pra dentro e em meus pra fora, nada é estanque, nada permanece igual, mesmo sendo o mesmo. Essa frase poderia ser minha epígrafe existencial. Ou... não!. Sigo o ritmo... O rio continua ruindo... o rio continua... Eu também sigo... no mesmo rio, sabendo que ele já mudou... Sigo... debulhando palavras como quem planta sementes ao vento... que as leva para onde ele quiser...

 

Maria
Enviado por Maria em 19/12/2025
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