Maria
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Textos

A Margem da Palavra

Nada me desloca do lugar de onde escrevo - do meu pensamento vivido. São os meus pra dentro que espelham pra fora quem sou, onde, com quem... E o tempo me devolve o espelhamento com mais nitidez do que a minha própria face no espelho. É que sou confusa. Tenho um caos interior e outro fora de mim e danço ambivalente entre eles. Dois polos que nunca se calam e me mantém falando, falando... es...cre...ven...do...

Sim, já disse: eu leio os filósofos do meu lugar. Porque é o único lugar possível. E por isso eu sei: nenhum filósofo é lido “do lugar certo”. Eles próprios escreveram do seu lugar, atravessados por tempo, corpo, medo, paixão, perda. Ler Heráclito “corretamente” não é repetir o fragmento, é deixar que ele me perpasse a alma. E isso faço sem espalmar as mãos para impedir ou para agarrar o tronco fixo à beira das águas.

Talvez por isso eu também já sabia: que o que muda é que alguns comentam Heráclito, outros o habitam. Ou seja: Eu. Eu o habito.

É óbvio que eu sei que paradoxo não é falha - é método (ainda que - no meu caso - intuitivo). Por que eu falo deixando paradoxos em aberto?. Porque o real é paradoxal. Porque fechar demais é trair a experiência. Estranho isso não? Confuso? Em Morin, seria pensamento complexo: não elimina a contradição, mantém os opostos em tensão viva, aceita que algo possa ser e não ser, dependendo de onde se lê, escreve...

Heráclito não resolve paradoxos. Ele os lança como flechas.

Eu? Não tenho medo do paradoxo. Recuso a falsa pacificação. Não é insegurança, é ética do pensamento.

Por isso, existir, para mim, é habitar. Em Heráclito: o ser é devir, a identidade é movimento. Em mim, o existir é habitação, mas uma habitação não fixa, permeável, levada pelas águas. Habitar, em minha palavra escrita, não é permanecer imóvel. É deixar-se afetar pelo lugar. Levar pelas águas. Não paro o rio. Moro nele enquanto ele passa. Amplia poeticamente o rio.

Sim, aquele rio... O mesmo rio que já não é o mesmo. Aquele que só existe como relação, nunca como repetição.

Em Heráclito e Morin, a identidade é processual, o real é instável e concreto ao mesmo tempo, a ilusão é real porque produz efeitos reais.

Por isso, digo que a dor é real porque acontece em nós, o amor é real porque nos transforma, a palavra é real porque nos atravessa, nos perpassa a alma.

Morin escreveu: o “quase nada” é tudo para quem vive.

Aqui entra aquela fusão que tanto falo. Onde tudo se mistura. O Nada é Tudo eu disse uma vez quando alguém em perguntou sobre o amor: o que isto significa... Respondi: Nada! Se você não sabe o que significa é Nada! E, para mim o Nada é Tudo!.

Aqui talvez esteja o ponto mais singular. A filosofia tradicional busca significado. Eu busco fusão. Não entender o rio. Mas estar no rio. Não explicar a dor. Mas habitá-la até que ela diga algo sozinha ou se cale para sempre. Isso não é anti-filosofia.

É uma filosofia encarnada, pré-conceitual, que nasce antes da teoria. Por isso já disse e reitero: não tenho uma teoria. Tenho um modo de vida. Alguns pensam sobre o risco. Eu escrevo do meu lugar de risco.

Então… há algo errado? Não. O que há é um modo poético-filosófico de pensar, que: aceita a instabilidade, preserva o paradoxo, prefere a experiência à definição. Escolhe o sussurro ao sistema.

Não significa que eu falho ao não fechar, machadar, cortar, alisar, vernizar o texto. Eu resisto a empobrecê-lo.

Sim, “acho que preciso continuar navegando… pelo mesmo rio - sabendo que ele já não é o mesmo…”.

Isso não é indecisão. É se deixar navegar. Porque o rio muda. Porque eu mudo. Porque pensar, para mim, é continuar em movimento sem abandonar a margem interior. Por que algumas verdades só existem enquanto estão passando... e eu posso ir com elas ou simplesmente ficar aqui, sentada à margem, vendo o rio continuar a passar...

Maria
Enviado por Maria em 19/12/2025
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