Muitas vezes me ocorrem pensamentos sobre minha forma de viver. Você me conhece bem. Sabe que vivo a vida com simplicidade e verdade. Mas, às vezes, só às vezes, eu penso que não é fácil viver assim. Eu não sou sempre compreendida. Me veem como uma extraterrestre, "um ponto fora da curva" - você mesmo me disse um dia essa última frase. Mas quando eu vejo no que dá viver a vida como uma performance, mostrar ao mundo uma capa, uma máscara do que não somos, uma face de nós mesmos que pode ser administrada - admirada até - eu me agarro mais e mais ao meu modo de viver. Quando vivemos a partir de quem somos, a partir de nossos pra dentro, não há como vestir máscaras, nem como mentir com os olhos. Por isso, quero ser vista por dentro. Por dentro não há ângulo favorável. Não há iluminação correta. Não há narrativa que nos salve. Ser visto por dentro exige abandono das defesas. Porque o “dentro” não responde a estratégias, mas antecede a escolha, o cálculo, a métrica. É viver na lucidez da alma, do espírito (quase dolorosa, beirando o medo, o abismo). Ser visto por dentro é ser alcançado antes da escolha. Quando ainda não há personagem. Há apenas vulnerabilidade nua - e isso assusta mais do que sofrer. Há quem suporte melhor a dor repetida do que a vertigem de ser reconhecido sem armadura. A dor conhecida é chão. O reconhecimento sem defesa é abismo - mas também é morada, é abrigo.