Maria
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De ferir e sermos feridos

Quando machucamos deliberadamente o outro, estamos ferindo a nós mesmos. Principalmente se a pessoa que machucamos é aquela que também nos ama e a quem amamos.

 

Não se trata de uma punição invisível, nem de um retorno místico que nos alcança como justiça inevitável. É algo mais íntimo, mais silencioso - e talvez por isso mais profundo. O amor, quando existe, cria um território comum. Não somos mais inteiros apenas em nós: passamos a existir, em parte, no outro. E é por isso que ferir deixa de ser um gesto unilateral.

 

Há, nesse tipo de ferida, uma ruptura dupla. O outro sangra - visivelmente, às vezes -, mas há também um rompimento interno, quase imperceptível no início, que se instala em quem feriu. Porque, ao atingir quem amamos, atingimos também a imagem que construímos de nós mesmos dentro desse vínculo. Algo se desalinha. Algo deixa de reconhecer a si próprio.

 

E ainda assim, é preciso dizer: nem toda ferida nasce da crueldade. Muitas vêm do medo, da confusão, da incapacidade de sustentar o que se sente. Há gestos que ferem não porque desejam destruir, mas porque não sabem permanecer. Isso não absolve - mas humaniza.

 

O que realmente nos define, talvez, não seja o momento em que ferimos, mas o que fazemos diante da consciência da ferida. Há quem se afaste para não olhar. Há quem endureça para não sentir. Mas há também quem se detenha, quem reconheça, quem se permita atravessar o desconforto de ver o dano causado.

 

E é nesse ponto que algo pode ainda ser salvo.

 

Porque o amor não está na perfeição dos gestos, nem na ausência de falhas. Ele está, sobretudo, na responsabilidade. Na coragem de não fugir de si mesmo. Na disposição de reconstruir - não como antes, mas como algo mais verdadeiro.

 

Ferir quem amamos é, de algum modo, perder-se.

Mas reconhecer isso… talvez seja o início de um retorno.

Maria
Enviado por Maria em 21/03/2026
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