Queria rodar mundo
como um riacho
que não sabe
para onde vai,
mas toca
todas as paisagens do caminho
com águas frescas
e verdejantes.
Queria rodar
por dutos seculares,
destilando belezas
no cair da tarde.
E seguir assim -
sem o sabor amargo
das águas podres,
sem ser mais carregado
de intrigas
e pouco perdão,
sem dores vacilantes
ao rasgar o ventre
nas pedras,
me ajuntando sempre de novo
após o cair meteórico
dos paredões.
Queria ser assim -
parte da água
que corre
entre os musgos
e flores,
por entre os carcalhos
das folhas secas
que dançam
ao seu cruzar.
Rodar o mundo
bradeado de chuvas,
enfrentar lagos
e fontes,
até vento
de ordem.
Ah…
se eu só pudesse
ser riacho -
partir minhas águas
gotejando
louro-cerejas,
formando frutos
pelos costados da terra…
Ser água de rosas
e miosótis.
Sem ser presença falida,
sem ser mortalha
de folhas e troncos,
sem carcalhar o mundo
de barreiras
e portas fechadas…
Se eu só pudesse
ser rio -
desaguar
quietinha
- ou brusca
como uma cachoeira -
nas ondas
de teu MAR.