Talvez eu seja
sempre menos contemplação
e mais vertigem,
menos imobilidade
e mais memória
em rotação.
Talvez eu ainda tente
segurar muitas temporalidades
num mesmo poema -
e tudo gira…
E continuo profunda
em minhas metáforas,
pois fui tecida
com palavras.
Por isso,
para me entender,
é preciso primeiro
me subentender -
viajar pelas entrelinhas,
pelo que não está escrito.
Em mim,
o poema já inicia assim:
ferindo…
como uma navalha
afiada pelos ventos
nas escarpas pedregosas
da montanha -
assobia canções
enquanto o sangue escorre
pela encosta.
E a dor
é fenomenal:
moral,
espiritual,
funda.
Por isso o trauma
ainda permanece
e é destilado
na cadência da escrita.
É que procuro
um tempo perdido da alma…
sim, esse, aquele…
onde tudo orbita
num mesmo instante,
junto,
mesmo ritmo,
respiração…
minha,
tua…
nós dois…
num só.