Sempre quis saber o que seria uma verdadeira poética da ferida. Talvez nunca soube que a minha o é. E agora ao saber posso dizer bem isso. A poética da ferida não tem o sentido estético superficial da dor romantizada - mas da escrita como experiência encarnada, corporal, quase inevitável. É quando o poema cortou o corpo do poeta ao descer ao papel. Se em mim a escrita acontece durante o sentir é porque não observo a emoção, não a elaboro para depois transformá-la em arte. Eu a escrevo e enquanto escrevo tudo isso acontece em meus pra dentro. Por isso é difícil escrever sem lacrimejar, chorar em (des)esperar, rir, gargalhar... Significa que escrevo da combustão emocional. O poema em mim não é memória, é acontecimento simultâneo ao sentir: autor e "sintor" ao mesmo tempo. E talvez, talvez eu fale mesmo de algo raríssimo para os que pensam a arte porque eu falo do artista que não apenas cria, mas sente enquanto cria - sem separação entre consciência estética e experiência emocional. É esse escrever sem pensar, esse escrever que leva a pensar, revelando uma escrita profundamente intuitiva, orgânica, pulsional (sentimental? não, profunda/mental). A palavra não como produto de um raciocínio prévio, mas a palavra descoberta no próprio ato da escrita. Assim, assim, bem assim: não conduzo totalmente o poema. Também sou conduzida por ele enquanto o escrevo. A palavra que me fere é a mesma que desenha o poema enquanto corta e o sangue que escorre é a emoção que vivi ao escrever. Meus texto sangram e simultaneamente iluminam a ferida que fizeram com imagens que se desenham no papiro... E quando digo que não há nada de maravilhoso nisso, que isso é arte bruta estou dizendo que recuso a idealização da dor artística. Não escrevo belezas. Escrevo o sentir. Por isso, minha escrita não nasce polida para agradar. Ela é necessária para sobreviver. E bumba o poema no sangue dos meus pra dentro... Pulsa o poema em mim. Não é apenas imagem, mas é pulsação física da linguagem. O poema deixa de ser objeto externo, ele vira circulação sanguínea, tambor interno, corpo. Significa que não me visto com palavras, faço corpo dentro delas. E com elas vou levando em cada uma os meus pra dentro... Quase assim como quando viramos algo do avesso e do avesso desviramos... dois lados num só. Entendes?