Talvez, talvez…
eu caminhe
por este limiar
de uma metamorfose interior.
Mergulhando fundo
no sofrimento
numa tentativa
de reencontrar
uma forma de existir
depois dele.
Não sei
se é possível
fazer isso mais uma vez
sem retornar
ao ponto anterior
à ferida -
ao instante
em que minha identidade
ainda não orbitava
em torno
da espera incansável
e vestida
de impossibilidades,
mas se deixava iluminar
pelo florescer
do sentimento nascido.
Constato - pasma -
que o vínculo entre nós
parece ter nascido mesmo
do reconhecimento mútuo
da ferida,
de uma inquietação
existencial profunda:
a identificação
de nossos abismos,
o eco
de nossas dores,
o espelho
da incompletude
e de nosso sofrimento
que nunca se finda.
Somos
duas almas
que se reconhecem
no mesmo idioma
subterrâneo:
o da dor.