Falo do toque da alma, aquele instante em que alguém alterou para sempre a forma como vemos o mundo, como vivemos dentro dele. Por isso, insisto: meu amor continua vivo. Não porque se realizou - foi vivido em sua plenitude, mas porque é verdadeiro. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas. Nem tudo que é verdadeiro se realiza. Nem tudo que se realiza é verdadeiro. A vida é efêmera. E tudo que nela existe também. Nada pode ser guardado dentro das mãos. Porque tudo passa. Por isso, na noite em que a música toca com serenidade, a dor permanece funda. O afeto também. Simultaneamente. Como o frio da noite e o calor da lamparina. Como a maré que se afasta e o som de suas ondas que continua chegando à praia. Neste instante sou aquela mulher parada à beira-mar. Os cabelos movidos pelo vento. O horizonte distante. Nenhuma expectativa de que o Mar lhe pertença. Mas uma profunda gratidão por ter sido tocada por ele.