Maria
Prosa e Poesia
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Textos

A dor da perda

Eu posso escrever os poemas mais belos do mundo. Posso dizer que ele é admirável, adorável, muito amado, importante, único. Posso permanecer ao lado dele durante anos. E assim foi. Eu fiquei. Vinte anos de amor entregue cotidianamente da forma mais linda - a poesia. E hoje vi, que - na verdade - ele nunca conseguiu receber esse amor. Talvez por medo. Quem sabe por culpa. Às vezes porque procura (e penso que encontrou) outro amor. Talvez porque está comprometido com uma narrativa sobre si mesmo que não permite reconhecer o que lhe é oferecido. Isso não transforma o meu amor em inexistente. Apenas significa que meu amor não produziu nele o efeito que eu desejava. Não o tocou. Não foi bálsamo e cura da dor tão sentida como pensei que fosse. Entreguei amor ao longo de milhões e milhões de anos. E agora ele diz que decidiu seguir sozinho, segurando a mão de outro amor (que exige promessas eternas e não faz perguntas). E me culpa pela sua "dor autoprovocada". Uma coisa eu sei. A decisão de segurar uma mão pertence a quem a segura. A decisão de soltar a outra mão que se segurava também é decisão da mesma pessoa que a segura. Podemos influenciar pessoas. Podemos decepcioná-las, encantá-las, afastá-las ou aproximá-las. Mas a escolha final de ficar ou ir continua sendo delas. Por isso, se ele escolheu caminhar de mãos dadas com Escuridão, essa escolha é dele. Eu posso lamentá-la. Posso discordar dela. Posso sofrer por causa dela (é já me sofro porque me dói profunda e eternamente), mas não posso carregá-la (a culpa da escolha dele) como se fosse minha. Por isso, o que esteja se descerrando em mim não são as cortinas da vida nem as do amor, mas as cortinas de uma esperança específica: a esperança de que ele finalmente olhasse para tudo o que lhe entreguei (o amor, a fidelidade, o carinho, a candura, a poesia, alegria, a força para viver) e dissesse: "eu vejo", eu também te amo. E, agora? Perder essa esperança dói, porque ela não era apenas uma expectativa sobre ele. Era também uma expectativa sobre o sentido do amor e de tudo o que escrevi nestes 20 anos, tudo o que eu senti e entreguei ao longo do caminho. A pergunta que fica diante o descerrar da cortina da noite não é se eu o amei. Isto está claro. Eu o amei. Eu o amo. O amo, o amo - com amor verdadeiro, puro, imenso, intenso. A pergunta que eu devo me fazer é se o reconhecimento dele é a única medida possível da verdade desse amor. Porque, se for, ele terá o poder de apagar toda a nossa história. Se não for, então a história continua existindo, mesmo que ele jamais a reconheça. E essa é uma conclusão muito mais difícil de suportar: sim, eu o amo e continuarei, mesmo abandonada por ele, mesmo rejeitada, ignorada - para sempre - a ama-lo profunda e apaixonadamdnte!

Maria
Enviado por Maria em 03/06/2026
Alterado em 03/06/2026
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