A reflexão nasce quando a noite finalmente obriga a alma a olhar para si mesma. À luz do sol tudo parece igual, mas no canto escuro da noite os monstros e ruas vazias se agigantam na retina da alma.
E é exatamente aí que mora uma das grandes contradições da existência.
Durante o dia, somos empurrados pelas urgências. Trabalhamos, resolvemos, respondemos, atravessamos compromissos.
Mas à noite, quando as distrações se recolhem, resta o encontro inevitável com aquilo que somos.
Falo do lento passar do tempo não como calendário, mas como peso que estremece os trilhos da nossa vida. O velho trem de carga da vida não transporta apenas anos. Transporta amores interrompidos, sonhos adiados, escolhas feitas, escolhas recusadas, culpas que guardamos, alegrias que esquecemos de celebrar. Vagão após vagão, seguimos puxando uma composição enorme sem perceber. Até que um dia ouvimos o ranger dos trilhos. E nos curvamos ao peso do tempo com os ombros já amarelecidos pelo outono sem saber se sobreviveremos ao intenso inverno que ainda está para chegar.
Lutamos! Continuamos lutando. Como me dissestes: estou lutando, estou lutando!
E, agora que me falas, em meio ao seu processo de reflexão e busca por respostas, também não sei o que lhe dizer para amainar (ou tentar) o sofrimento e a dor.
Não quero lhe enganar fazendo uma apologia à vitória - ela pode não acontecer. Não desejo prometer redenção grandiosa, nem falar de um sol esplendoroso que dissolve todas as sombras.
Quero falar daquela fresta que você vê e dela fala. Uma fechadura na porta escura. Uma pequena chama.
Porque, ao longo do meu tempo, vivências e meu morrer e viver, percebi que talvez seja exatamente assim que a vida funcione. Nem sempre encontramos uma saída monumental. Muitas vezes encontramos apenas uma luz suficiente para dar o próximo passo. Uma luz que não elimina a noite, mas permite atravessá-la, suportá-la. Uma luz que não apaga as cicatrizes das asas, mas permite voltar a abri-las. Uma luz que não responde ao "por quê?" de todas as dores, mas responde ao "para onde vou agora?".
E talvez a palavra que resume todo o nosso provável - ou improvável - movimento seja escolher - para sempre - ficar. Porque depois de toda a reflexão sobre o peso, a ruína e a ferrugem, sobre os fracassos acumulados e sobre a escuridão, a escolha final não é desaparecer. É permanecer. Não porque a dor tenha acabado. Não porque o caminho tenha ficado fácil. Mas porque, do outro lado da fechadura, existe uma pequena luz dançando.
E enquanto houver uma única luz dançando, por menor que seja, ainda existe um caminho possível para a alma seguir.
Fique! Em ti! Busque essa luz que vês pela fresta da porta. Achegue-se a esta chama que ainda arde em teu peito.
Eu estou aqui. Jamais penses que estás sozinho nesta tua jornada pela vida. Caminho contigo na luz e na escuridão, mãos dadas, lado a lado. Em amor e oração!