Talvez esse seja um dos maiores aprendizados da vida. Sentar ao lado do Caos como se ele fosse um velho amigo e aprender com ele. Porque passamos grande parte da vida tentando expulsá-lo, combatê-lo, dele fugir, negá-lo.
Mas há momentos em que ele é inevitável. A perda chega. A ausência chega. O amor nos corta e atravessa. O medo nos encontra. E, diante disso, não há muralha capaz de impedir a tempestade.
Mas, é quando uma fresta do tempo se abre e uma réstia de luz cai sobre a tempestade nos mostrando que, mesmo a destruição ao redor, ainda nos encontramos no silêncio do olho do furacão. Ali a vida gira lenta e sincronizada às intempéries e sinistros que despencam sobre nós. Ali não há escuridão, mas um cinza cor que é ao mesmo tempo alerta de perigo e proteção. Ali há calmaria e o lento girar do tempo. Tempo para se abrigar, tempo para se fortalecer, tempo para só sobreviver se beiramos o morrer em vida...
E, no silêncio ensurdecedor nos resta ainda outra possibilidade: escutar. Não a voz da destruição, mas aquilo que ela revela. Que também há silêncio e paz em meio à destruição.
Muitas pessoas passam a vida inteira sem perceber: o centro do furacão não é o lugar da violência. É o lugar da consciência. E o caos iluminado, sentado ao lado, nos ensina isso. Lá fora os ventos arrancam telhados, derrubam árvores, revolvem mares. Mas no centro existe um espaço estranho onde o tempo desacelera e a alma consegue finalmente olhar para si mesma.
Quando conseguimos olhar para dentro de nós mesmos, para o caos, para o medo, para as angústias e dores tão latentes e acionarmos processos de reflexão, significa que estamos caminhando para a saída segura, para a busca do que nos dá paz, do que passa a ser de fato importante em nosso viver, do que nos é mais caro e precioso na vida.
Aprendemos - conosco mesmos - sobre o que precisamos deixar para trás (mesmo sem apagar memórias, sem apagar rastros), sobre o que precisamos reter, o de fato dá significado à vida, e, principalmente, identificamos que chama, que luz - verdadeiramente - ainda nos move, nos incendeia a alma, nos aquece os ossos secos, nos ilumina o olhar e acende sorrisos nos lábios, mesmo diante de pequenas singelezas, de uma voz que canta, de um poesia que se desenha, de um amor que resiste ao tempo e ao espaço e à todas as tempestades e está lá - nos meandros e territórios mais profundos de nosso coração aguardando o momento de nos entregarmos ao que realmente importa: viver e não apenas existir, amar e nos deixar ser amados.
É nesse momento que deixamos de perguntar apenas: "Por que isso aconteceu comigo?". E começamos a perguntar: "O que permanece quando tudo o que era acessório desaparece?".
É quando encontramos a resposta para a pergunta sobre o que de fato nos faz brilhar os olhos: não são os títulos. Não são as conquistas. Não são as certezas. São as pequenas chamas. Uma voz que canta. Uma poesia que se desenha. Um sorriso inesperado. Uma lembrança que aquece. Um amor que resiste.
E talvez seja justamente isso que distingue existir de viver. Existir é atravessar os dias do calendário na parede. Viver é reconhecer aquilo que faz os olhos brilharem apesar deles: "viver e não apenas existir, amar e nos deixar ser amados". Porque há uma diferença enorme entre a primeira e a segunda parte desse pensamento. Muitas pessoas aprendem a amar. Poucas aprendem a se deixar amar. Amar é movimento para fora. Deixar-se amar exige vulnerabilidade. Exige retirar armaduras. Exige confiar que alguém pode tocar as nossas cicatrizes sem transformá-las em feridas maiores.
Talvez seja por isso que ao lado do caos nos sentamos num lugar tão humano e conseguimos enxergar o caos, o medo, furacões, destruição e sobrevivência.
E, ao final da contemplação e elaboração, nosso processo de reflexão não aponta para o heroísmo. Aponta para a entrega. Como se, ao final de toda a travessia, descobríssemos que a chama que procurávamos não estava apenas no horizonte. Ela sempre esteve dentro de nós, esperando que tivéssemos coragem de nos aproximar do nosso próprio fogo e acendermos centúrias de luzes para iluminar nossos pés no caminho que ainda temos a percorrer.