Outono de Maria
Não tenho um lugar na mesa de pensamentos.
Não sou a xícara da vez para tomar chá - nem chá eu sou.
Penso que nunca serei.
Não recebo olhares íntimos, queridos e orgulhosos,
nem sou fotografada para o mundo ver.
Sou um velho trapo de pano
para limpar a poeira do teclado e do óculos -
talvez a mesma que não me permite ser vista -,
guardada entre as teclas e os dedos.
Desvendo enigmas, conheço a realidade (verdade)
e, hoje sei, que não encontro mais lugar
num mundo que um dia fiz parte.
Sou aquela que se perdeu ou foi propositalmente "perdida",
a que possuía a magia de fazer o mundo viver sua melhor versão,
mas que agora leu em decreto público
que este mundo não lhe pertence
e nem ela a ele pertence mais.
E Ele me disse que somos...
duas Ilhas distanciadas pela Vida,
duas galáxias que já haviam se encontrado,
mas que a Vida outra vez separou.
Talvez eu seja e talvez logo não exista mais...
E, talvez, talvez eu ainda não saiba,
mas para o Mundo eu seja assim, assim...
como as estrelas que morrem e sua luz permanece -
talvez já nem seja mais Eu no Mundo -
mas seja apenas minha Luz que sobrevive nele.
O tempo passou.
Meu Outono chegou.
Desejo que quando o Outono passar
e o tempo se tornar amarelecido
eu seja pelo menos uma pequena flor -
guardada no relicário do peito -
miúda, querida, escondida, secreta Flor!