Sim, o tempo leva. Pode tudo levar.
E eu não sei conviver com perdas.
Mas sei que nem tudo que passa deixa de existir.
Porque algumas coisas permanecem como experiência,
como marca, como amor, como transformação.
E jamais serão apagadas. Nem poderiam.
São parte de nós, de nossa essência.
Como arrancar um pedaço de nós mesmos
e lançá-lo ao esquecimento?
Ainda que tentássemos fazê-lo,
permaneceria o vácuo, o vazio.
Falo de quem conhece a dor,
de quem já caminhou por desertos sem oásis,
por caminhos secos, com os pés feridos
pelas pedras e pelos cardos da travessia.
Conheço esses territórios. Neles vivi.
E, em meio à chuva e ao frio, surgem perguntas:
E se, além dessa paz do frio, também houver uma chama?
E se, além da chuva, ainda houver abrigo?
E se, além do silêncio, ainda houver uma voz?
Talvez seja justamente nesse espaço
entre a chuva sem resposta
e a luz que permanece
que nossas almas se encontram.