Sim... não preciso de lições, respostas ou promessas. Delas nunca tive. Delas não sei viver. É disso que falo: do luto por algo que nunca existiu, do luto por uma possibilidade que disso nunca partiu. E talvez, talvez, seja hoje a primeira vez que disso vejo, que disso compreenda... aceite... Pelaquilo que foi imaginado, desejando, sonhado, pressentido existir - mas que nunca chegou a ganhar uma existência inteira.
Por isso choro, por isso sofro, por isso a dor funda nos olhos - aquela beleza triste que vês nos olhos candentes no espelho da janela do tempo profundo. É onde mora a dor - essa - tão difícil de explicar.
Não há uma história concreta para apontar e dizer: foi isso que perdi. Há um espaço. Um quase. Um lugar que a imaginação, o coração, a alma e o desejo habitaram por muito tempo.
Não há gesto ou reparação que devolva anos, que desfaça o choro tão sentido, que reescreva o que não aconteceu e nem perdoe o que fere tanto agora - não ser escolhida entre as tranças, mãos dadas e passos do dia. Não... talvez nem queira mais isso... talvez - hoje - não saiba mais o que queira... mas - talvez, talvez... ainda exista esse desejo muito pequeno e, ao mesmo tempo, imenso: queria... queria assim, assim, um gesto. um abraço demorado. uma face próxima. um pouco de colo para a alma. Não é pedir a vida inteira. É pedir um instante em que o que viveu tanto tempo dentro de mim pudesse, finalmente, ter um lugar fora...
Se não digo é porque dizê-lo me torna sim mais e mais vulnerável...
Enquanto o sonho, o desejo, permanece dentro de mim é meu. Ninguém pode recusá-lo. Ninguém pode dizer que não. Mas, quando ganha voz, ele pode ser ferido.
Por isso, não posso mais dizê-lo. Sussurro... assim, assim, baixinho, silenciosamente... somente para mim... uma maneira de entregar o coração... poder sussurrar, escrever: queria...
Não, jamais irei diminuir o que sinto, o que senti... só porque talvez tenha sido eu quem sonhou mais, demais, sonhou só...
Eu amei, desejei, esperei, imaginei... tudo dentro de mim... em mim... essa é a minha verdade. E ninguém de mim a pode tirar.
Fica um pouco comigo. nesse silêncio. Sem pedir que eu seja forte. Sem pedir que eu deixe de querer. Sem pedir que eu esqueça. Fica... fica um pouco comigo... amor.