Engulo o silêncio
não como quem o merece,
mas como quem dele não tem medo
e dele também pode exercer.
O que aqui, de longe, eu vejo,
é que o peito traz dentro de si um santuário.
Que nele habitam afrescos de sentimentos
tão puros que o mundo - o teu -
talvez nunca mais vá sentir.
Essa luz que me habita
e tantas vezes entreguei em palavras,
poemas, sorrisos, olhares profundos...
essa luz aqui permanece - intacta.
Permanece assim, assim,
um jardim nunca adentrado,
onde a felicidade caminha entre as árvores,
mas ninguém a quis adentrar.
Dela fugiram. Dela fogem,
dela não querem saber,
dela julgam não pertencer.
Olho o mundo até o subsolo
e só vejo e ouço silêncios.
Engulo cada copo ardido,
não como quem o merece,
mas como quem dele hoje
não tem mais medo
e dele também pode exercer.