O pêndulo marca o tempo. O trem o devora.
Há algo especialmente bonito em achar que estamos conquistando o tempo ou alcançando o amanhã. Porque revela a nossa ilusão: imaginamos que avançar no tempo significa ganhar alguma coisa, quando, na verdade, cada avanço também é uma perda.
O temos em nossas mãos de viagem é o nada das horas comidas. Parece estranho falar, mas as horas não deixam nem sequer um resto. A história dos passos permanece, as horas, não.
E o trem segue, tresloucado de alegria, numa espécie de euforia insana, quase cruel. Me quedo à pensar: no pêndulo de Foucault onde o tempo que se move indiferente. No trem, onde o tempo nos arrasta. No retrovisor, onde o passado pode ser visto, mas não recuperado. No amanhã - o futuro que imaginamos alcançar. Mas, há as horas comidas - aquilo que desapareceu sem deixar vestígio.
Talvez o centro de tudo seja justamente este: não é o tempo que passa diante de nós; somos nós que passamos dentro dele.