Maria
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Textos

A perplexidade do tempo

Penso que encontrei minha pergunta verdadeira. Até agora estava construindo imagens do tempo. Agora me aparece a perplexidade diante dele. E isso é muito mais forte. Há contradição inteira em meus pra dentro: nós corremos em direção a alguma coisa que, quando finalmente chega, deixa imediatamente de ser aquilo que buscávamos. E a passagem do presente que quase não tem tempo para existir? Talvez seja essa a chave deste universo de indagações. Vivemos olhando para trás ou correndo para frente, e o presente - único lugar onde a vida efetivamente acontece - fica reduzido a um intervalo quase invisível. E há essa cláusula inesperada, quase jurídica: como se tivéssemos nascido sob um contrato que não lemos. Uma cláusula absurda: somos obrigados a acrescentar dias à vida ao mesmo tempo em que somos obrigados a subtraí-los dela. Pergunto, mas não sei mensurar respostas. Na verdade, acho que não devo. É o momento em que o pensamento deixa de tentar explicar o tempo e simplesmente admite: não compreendo aquilo dentro do qual existo. Tem ainda uma coisa que me atravessa o espírito conturbado: o tempo passa, depois nos arrasta, depois nos atravessa. Então percebo que talvez seja impossível separar tempo e existência. Não estamos dentro do tempo como quem está dentro de um lugar. Nós somos feitos dessa passagem. E talvez seja por isso que os 'pés teimosos' sejam tão importantes. A cabeça já percebeu o paradoxo. Os pés, não. Eles continuam andando. E isdo é muito humano: sabemos que o amanhã não chegará como amanhã, sabemos que cada passo deixa para trás aquilo que não poderá ser recuperado - e, mesmo assim, continuamos caminhando.

Maria
Enviado por Maria em 15/08/2026
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