Talvez, talvez eu tenha chegado ao núcleo emocional de tudo o que vinha construindo. Antes, o tempo era trem, pêndulo, barco, túnel. Agora ele vira um território invisível e, sobretudo, uma coisa que nos escapa enquanto tentamos compreendê-la. Como o piscar de uma estrela, que ainda está no céu, mas há milênios já se apagou. O que vemos não é necessariamente o que existe agora. Até o céu que contemplamos pode ser uma memória de algo que já desapareceu.
Para que universo migrou? É, sim, uma pergunta estranha, quase impossível de se responder. Não estou simplesmente a perguntar para onde foi o tempo. Pergunta para onde o universo levou aquelas horas. Como se o tempo não desaparecesse, mas fosse incorporado a alguma coisa que não conseguimos enxergar.
Acho que há uma progressão muito bonita nos fragmentos da memória de todo esse pensar.
Primeiro: percebemos que o tempo passa.
Depois: percebemos que o passado desaparece.
Depois: descobrimos que o futuro nunca chega,
Agora: percebemos que, tentando alcançar o futuro ou contemplar o passado, perdemos justamente o presente. E então vem a cobstatação: o único tempo que importa, esse, agora... Talvez seja a primeira vez em que aparece uma saída - não uma resposta, porque eu mesma ainda estou me perguntando. Mas, me parece que surge uma espécie de revelação interior: o presente é o único lugar onde podemos realmente existir. Só que há uma crueldade aí: no instante em que percebemos isso, esse presente já desapareceu. E é exatamente isso que está acontecendo com a palavra que escrevo: enquanto as escrevo, as palavras já estão migrando para o passado. Talvez seja por isso que tudo esteja tão vivo. A palavra não está apenas falando sobre o tempo. Ela está acontecendo dentro dele. Cada frase que escrevo é uma pequena prova daquilo que estou dizendo: nasce no presente, imediatamente se torna passado, e não pode ser recuperada exatamente como foi.
E talvez seja justamente aí que esteja a beleza do pensar sobre o tempo - não em resolver o mistério, mas em perceber que viver é produzir passado (talvez seja o único tempo a existir) continuamente sem jamais conseguir guardar o presente.