Maria
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Textos

Dimensão mais íntima

E disso que falo. Falo sobre a impossibilidade de possuir qualquer coisa - inclusive o amor, a própria voz, a própria experiência.

Sei que adentro uma dimensão muito mais íntima do que só refletir sobre o tempo.

Tem um coração batendo aqui dentro do peito. Tem um coração. Parece soar infantil, mas é a verdade em sua simplicidade. Depois de falar de pêndulos, futuro, passado, universo e tempo, volto ao corpo, volto aos meus pra dentro onde bate um coração agora. Não há teoria ou pensar filosófico que possa substituir isso. Há um coração que carrega um sentimento não vivido, apenas sentido.

Aqui o afetivo se mistura no tempo, num tempo que é e num tempo que não é nosso. Porque sentir também acontece no presente, mas aquilo que sentimos pode estar ligado a alguém que não está presente, a um amor que não se realizou, a um futuro que não podemos garantir. O sentimento existe - mas não podemos possuí-lo como possuímos um objeto. Já me disseram que nada é meu, nem a voz que agora fala e já se perde ao vento, nem a palavra que quer nascer e se perde no tempo.

Na maturidade do ensaio descubro que começo falando que o tempo não é nosso e termino descobrindo que nem mesmo aquilo que produzimos dentro dele é inteiramente nosso.

Mergulho fundo nesta vertigem: onde eu sou e não sou mais e onde eu vou e me perco... A contradição da vida. O 'eu' existe naquele instante, mas o instante já está desaparecendo. Portanto, eu sou - e, no mesmo movimento, deixo de ser aquela que era há um segundo.

Talvez o que eu esteja tentando aprender seja justamente isto: não aprender a controlar o tempo, mas aprender a permanecer dentro dele.

Não alcançar o amanhã.

Não morar no passado.

Não tentar possuir o instante.

Apenas estar nele.

E isso é muito difícil porque, no instante em que percebemos que estamos vivendo, já estamos perdendo aquilo que percebemos.

Talvez por isso eu precise continuar perguntando “o que é o tempo?”, sem responder. Porque talvez a pergunta seja mais verdadeira do que qualquer resposta.

O tempo pode ser justamente essa coisa impossível: o lugar onde tudo acontece e, ao mesmo tempo, tudo desaparece.

Maria
Enviado por Maria em 15/08/2026
Alterado em 15/08/2026
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