Há algo de místico
e de profundamente humano
nas palavras ditadas pelo coração.
Como se a alma,
atravessando as tempestades do tempo,
reconhecesse um eco de si mesma
em algo ou alguém
e o refletisse
no espelho de seus pra dentro.
Cada palavra segue a linguagem,
a cor,
a música.
Acompanha o ritmo
que já nasceu na alma da Poetisa
e, ao nascer,
encontra seu próprio destino:
fazer-se palavra,
fazer-se poema,
fazer-se memória.
E assim,
sem que se saiba exatamente quando,
aquilo que era apenas um sentir
ganha corpo,
ganha voz,
ganha silêncio.
A alma escreve
e o poema acontece.
Primeiro dentro.
Depois no papel.
Depois no tempo.
Quem sabe seja esse
o pequeno milagre da poesia:
aquilo que um dia
foi apenas um movimento secreto
no fundo de uma alma
pode atravessar os anos
e encontrar outra alma
que ainda não sabe seu nome.
Então o poema deixa de pertencer
àquela que o escreveu.
Torna-se caminho.
Torna-se espelho.
Torna-se eternidade.
E é assim que nasce
um poema de primeira página:
não quando a Poetisa escreve a primeira palavra,
mas quando a alma, finalmente,
reconhece que já havia escrito tudo
muito antes de dizê-lo.